Mas cuide bem da nossa mangueira

Os acontecimentos e contingências de agora, de nossa vida, me faz crer que teremos que abandonar todos os nossos planos, desejos e confabulações que atrevemos a sonhar. Que toda a cobiça que tínhamos para nós dois, aparentemente tão profunda, tão cheia de alma e futuro, plasmada dia-a-dia na militância do nosso amor, agora habita os empoeirados porões da nossa memória. Serão somente lembranças daqui para frente. É possível que você já tenha se esquecido da maioria dos nossos sonhos – ou nunca tenha realmente deles se ocupado –, mas, é justo confessar, eles sempre foram demasiadamente meus, tão profundos no coração eu os guardava.

 Não sei se tu recordas, mas foi em uma noite fresca de outono que eu a vi pela primeira vez. Era um contexto poético de uma noite suave e branda; não poderia imaginar o quanto aquele simples encontro significaria para mim. Eu sempre desconfiei, e hoje tenho certeza, é quando o coração está desprevenido, desarmado, que os maiores amores acontecem. O coração não gosta de amores ensaiados, premeditados. O meu estava totalmente desarmado naquela noite de sábado.

Agora, revelar-te-ei um segredo: após tentar te seduzir recitando meus poemas idiotas no prolongamento daquela noite, eu tive o meu primeiro sonho ao teu lado. Porém, antes da revelação, cabe salientar uma coisa: de quem foi a genial idéia de assistirmos um filme aquele dia? Era a desculpa que eu precisava para ficar ainda mais perto de você. Ah, uma pergunta. Você lembra o nome do filme que assistimos aquela noite, meu amor? Aposto que não! Mas eu me lembro bem e posso refrescar tua memória. O filme se chama “A Partida”, do diretor japonês Yojiro Takita, é um bom filme. Jamais me esquecerei.

Prosseguindo, de volta ao meu primeiro sonho ao teu lado. Eu desejei muito que você não retirasse o teu pé quando eu o tocasse com o meu, ofertando timidamente os meus primeiros carinhos a você, já no segundo prolongamento daquela noite poética e quase sem fim. O bom é que neste momento de madrugada avançada já não restavam tantas pessoas com a gente, atrapalhando meus melhores planos para a inesquecível noite. E, tenho que ser franco, eu pensei, hesitei bastante antes de tocá-la com os meus pés; eu suava frio embaixo daquele edredom, imaginando qual desculpa daria caso você não revidasse os carinhos. Hoje tudo poderia ser tão mais fácil se você nunca tivesse retribuído os meus carinhos.

Mas a vida não é sempre como a gente sonha, planeja. No entanto temos que continuar na lida, seguir sempre em frente. E eu seguirei sem você. Foi tão bom sonhar com você. Eu sonhei os melhores sonhos da minha vida ao teu lado, os maiores planos que fiz até hoje em minha vida incluíam você. Sei que não será fácil esquecer algumas coisas tão vivas e presentes ainda em mim. Nossos sonhos não podem ser vividos com outros atores, personagens que não sejam você e eu. Será muito triste ter que abandoná-los, jogá-los na lata do lixo da nossa história.

Quem me provocará – mesmo entendendo pouco de futebol – sempre que o meu time perder? E os planos de conhecer Minas Gerais, viajar pelo meu estado querido? Para quem eu apresentarei com ar de guia turístico os locais, ruas e lugares que têm o cheiro da minha infância e adolescência? Jamais poderei te confessar que um dia desejava morar em Belo Horizonte com você, mesmo que fosse apenas na velhice,  no final das nossas vidas.  É muito dolorido pensar nisso, mas jamais discutiremos sobre a alimentação da Rosa, ou combinaremos quem a levará na escola na próxima manhã. A Rosa Morena nunca nascerá.

É certo que um dia alguém te amará muito melhor do que eu pude te amar, provavelmente mais sereno e dedicado será este amor por você. Talvez até um grande poeta te ame bastante e te dedique melhores poemas do que eu consegui fazer, tenha em você uma grande musa para duzentos sonetos de amor, como eu sonhei escrever.  E por acreditar em tudo isso, saber que não serei eu o teu poeta, dói tanto o meu peito. Sei que é contraditório, mas eu sou feliz por saber que os teus risos serão mais alegres, espontâneos e sem medo; que tua vida será mais gostosa, mais viva e bem vivida sem mim, mas eu sonhava tanto que esta felicidade fosse compartilhada por nós dois.

Porém, antes de partir, eu só queria um último pedido, um triste e definitivo pedido. É um pedido reprimido, ridículo, com vergonha, mas tenho que lhe pedir. Ela não tem culpa, não pode sucumbir como o nosso amor. Meus pedidos nunca mereceram tanto a tua atenção como agora. Não importa se o amor nasceu na primavera e não durou até o primeiro verão, o outono não pode enterrar o perfume das flores de nossa árvore. Quando eu partir e ela ficar só, mesmo que você já tenha me esquecido, não se lembre mais de mim, e sobre isso eu nada poderei fazer, ouça o meu último pedido: cuide bem da nossa mangueira. Ela merece florescer por muitos anos ainda e dar belos frutos. Quem sabe se ao cuidar da “nossa” árvore você relembre um pouco de mim e finalmente encontre e descubra que nela estão gravadas para sempre as iniciais dos nossos nomes.

 

Igor Figueiredo – primavera de 2012

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Mensagem a uma grande mulher

Meu amor,

É com grande alegria e entusiasmo que te escrevo nesta madrugada solitária e glacial. O teu calor e abraço apertado não me fazem companhia nestas avançadas horas de silêncio quase absoluto. Quase absoluto apenas porque o que ouço agora são as graves batidas do meu coração interrompendo a tranqüilidade deste momento. Sempre digo a ele que se aquiete após a meia-noite, mas meu coração insiste em ensaiar óperas de amor toda vez que estou pensando em você. É um sem parar eterno, o tempo todo, não tem sono, vontade de comer ou mesmo cansaço que o faça repousar, está eternamente a ensaiar cânticos e solos em tua homenagem. É um barítono dramático este meu órgão.

Escute, você não sabe, minha querida, tenho que te contar uma descoberta desta noite. As flores da mangueira estão mais coloridas e perfumadas, parecem estar se desenvolvendo com vigor, e muita elegância. Nos próximos meses teremos saborosos frutos no meu quintal. Acho que as chuvas inesperadas para esta época do ano fez com que elas exibissem cores e perfumes ainda mais sedutores, aroma delicado este que preenche minha casa enquanto te escrevo.

Linda, não faz tanto tempo assim que os ventos das noites de outono anunciavam o quão frio seria o inverno em tua cidade; mas não esperava temperaturas tão polares assim. E foi também numa destas noites proféticas que o outono me trouxe você. Ainda bem, não consigo imaginar mais noites como estas sem você, de ventos batendo na porta e uivando para entrar, mas eu não permito. O outono te trouxe assim, de repente, sem marcar encontro, sem ensaio nem guarda-chuva. Todas as previsões e expectativas estavam tão cinzas e geladas que mal pude perceber o teu calor veranil quando se aproximou. Não obstante a minha desatenção de primeiro momento, tua beleza e amorosidade me envolveram com a sutileza que só as grandes mulheres conseguem envolver. Só mulheres grandiosas podem ser tão encantadoras como é você; carregar, em si, um charme e elegância que predomina sobre a opacidade de vidas presas a coisas tão pequenas, como as de algumas pessoas que costumeiramente encontro.

A tua companhia me faz preencher de vida, com as cores da aurora austral, todos os espaços cinzentos que persistiam em mim. O teu cheiro repousado sobre o meu travesseiro faz do meu despertar um momento mais vibrante, mais cheio de quereres e impulsos para o dia. Teu perfume que ascende ao olfato é bálsamo todas as manhãs para o meu coração entregue ao amor. E também faz lembrar que você cedo – ou mais cedo ainda – voltará.

Sim, sempre voltará, minha grande companheira. Voltará porque estás aqui e eu estou aí; estamos juntos e com as mãos tão entrelaçadas que, às vezes, parece já estarmos juntos a cem primaveras. E que venham as flores das próximas duzentas primaveras a nos perfumar; os anos, os séculos, os filhos e os netos. Que os debates e as discussões sejam sempre construções de progresso e fraternidade; as dúvidas apenas sobre nome de filhos e das decisões políticas mais acertadas que devemos tomar; que a nossa estante seja repleta de pensadores e poetas como Drummond de Andrade e Rimbaud, mesmo que eu recite para você em francês imperfeito os versos do poeta de Charleville. Que nos tornemos maiores a cada encontro, a cada dia, a cada primavera, compatíveis com a grandeza do amor.

Meu amor, o sol já nasceu anunciando mais um dia na minha janela; que a próxima noite seja mais calorosa e com você ao meu lado. Agora vou vigiar as flores da nossa mangueira, ansioso por mais novidades para te contar.

Com amor,

Igor Figueiredo – inverno de 2012

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Soneto – 1: Amor por debaixo do céu de Dionísio

Em primeiro ato me apresento solo, sou eu a te amar sozinho e calado

nenhum público sabe o que se passa no palco escuro do meu coração

apenas a coxia e a cortina empoeirada presenciam o espetáculo ensaiado

você ainda não sabe o que eu tramo, como te amo e carrego meu pendão.

 

O ensaio vai a público, a encenação se torna peça de drama e revolta,

já não há mais resolução para a trama recebida com frieza na apresentação

a expectadora consegue seguir os mesmos passos sem demonstrar reação

na grande noite do verão a negação do amor se converte em aceitação.

 

A magia dos teatros invade o barracão humilde das minhas criações,

o amor por você tem propósito e direção, já venceu revolta e negação

percebo de costas para ela que a vida é encenação em drama e paixão.

 

Moça, após longa temporada de mambembe emoção, diversão e alucinação,

não sabes, mas já me impregnastes de todo o teu cheiro e ardor de paixão

ouço aplausos da vida e a luz que nos ilumina o caminho vem do coração.

 

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Prólogo de “Um Amor Na Era Do Medo”

Ela vestia sempre roupas que a deixavam mais bonita, hora sensual, hora com áurea de menina, por vezes com partes torneadas e gotejando sensualidade.  Ela era sempre sensual.  Às vezes sorria de soslaio, outras vezes gargalhava com intimidade. Sobre ele pouco se sabia, não era nada que, pela sua própria boca – ou mesmo pelos relatos de sua amada – fosse possível desvendar; os segredos desses dois eram quase maçônicos.  Alguns se perguntavam: existe deveras amor entres esses enamorados? Ela sempre sorria e despertava paixões, vontades e desejos nos homens que a rodeavam. Ele sempre se enciumava e marcava tal posição esperada de homem na era do medo. Ela conhecera um novo mundo e se distanciava cada vez mais da sua antiga redoma, onde todos eram felizes, tinham dinheiro e eram bons. Tudo isso se acumulava com o tempo, as contradições virariam, hora ou outra, antagonismos. Mas como proceder nessa situação? Lênin já escreva no início do século XX a famosa obra “O que Fazer?”, mas, de certo, nenhum dos dois nunca tinha folheado a tese de Vladimir sobre problemas práticos da revolução socialista. Ela, cujo nome desvendo agora, caro leitor, nesse pobre prólogo de uma noite de inverno, foi batizada de Ana Maria por teus pais; ele, herdeiro de certa quantia que poucos brasileiros jamais sonharam em possuir, foi homenageado de Gérson. E agora, a pergunta que se faz presente: Como fazer? Como proceder? Como continuar a vida nesse mundo aonde o medo, o conservadorismo, a mediocridade, tudo que não vai para frente, predomina? Essa será a resposta que, caríssimo, sei que são poucos, mas muito diletos leitores, acompanharam no meu primeiro – ou tentativa dele – romance. Vamos, página a página, capítulo a capítulo, desvendar os segredos e medos de “Aninhha” – somente para os  íntimos – e Gérson, sisudo e  careta.

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Soneto – 1: Amor sob o céu de Dionísio

Em primeiro ato me apresento solo, sou eu a te amar sozinho e calado

nenhum público sabe o que se passa no palco escuro do meu coração

apenas a coxia e a cortina empoeirada presenciam o espetáculo ensaiado

você ainda não sabe o que eu tramo, como te amo e carrego meu pendão.

O ensaio vai a público, a encenação se torna peça de drama e revolta,

já não há mais resolução para a trama recebida com frieza na apresentação

a expectadora consegue seguir os mesmos passos sem demonstrar reação

na grande noite do verão a negação do amor se converte em aceitação.

A magia dos teatros invade o barracão humilde das minhas criações,

o amor por você tem propósito e direção, já venceu revolta e negação

percebo de costas para ela que a vida é encenação em drama e paixão.

Moça, após longa temporada de mambembe emoção, diversão e alucinação,

não sabes, mas já me impregnastes de todo o teu cheiro e ardor de paixão

ouço aplausos da vida e a luz que nos ilumina o caminho vem do coração.

Igor Figueiredo – outono, 2011

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Previsão Para o Futuro

Se você me perguntar como tudo isso foi acontecendo, como pode existir tanto amor nas palavras que escrevo dedicadas a você, em meus olhares que sempre te fitam com bastante emoção, hora esperançosos, hora melancólicos, pedir que eu te explique absolutamente tudo o que sinto por você, como isso foi se desenvolvendo, cristalizando, como o meu coração se enche de alegria e vontade de futuro toda vez que está ao teu lado, certamente não saberei te dar uma resposta muito ilustrada sobre isso. Nunca saberei explicar o que acontece, como se forma a magia deste amor, a áurea de quando estamos perto um do outro, a alegria que nos contorna e paralisa o tempo. Que bom é o cheiro de flores que domina o ar e me impregna de felicidade!

Confesso que eu não costumo me sair muito bem quando tento explicar sentimentos, paixões, meus amores – sejam eles futebolísticos, humanos, políticos ou algo do gênero –; mas também não me ocupo de forma alguma em tentar me tornar um expert nisso, nessa coisa de tornar científico, teorizado e explicado os temas que só o coração entende. Não obstante, uma dissertação sobre o meu amor por você talvez te encorajasse a segurar minha mão com mais firmeza e menos desconfiança, tornando-a um esteio para a sua vida: seria uma espécie de parceria academia-coração. Quem sabe uma obra mais literária e menos técnica, com citações de poemas e pitadas de cânticos de amor dos orixás, ao invés de sociólogos e economistas recortados entre aspas, te aproximasse mais de mim.

Talvez eu não tenha todas estas bibliografias para te indicar, nem possua as provas mais científicas e racionais para lhe apresentar, não; minha pasta está vazia de livros famosos e garantias impressas em folhas de papel que decanos e eminências canonizaram no meio em que as “letras frias” valem mais do que as palavras quentes e sujas de vérnix que nascem desde o coração. Apenas possuo a mente livre e cultivável, somada a um órgão bem disposto guardado sob um peito que parece pequeno demais toda vez que penso em te acompanhar pelas temporadas de plantação e colheita que ainda teremos nesta vida.

Se tu aceitas a minha companhia e cumplicidade em tua vida, porém, é justo e coerente que saibas, por isso lhe apresento a seguir a análise do que pode ser o nosso futuro. Antes, no entanto, cabe salientar que não pretendo fazer aqui misticismo ou futorologia, jamais. Atrevo-me apenas a ler a história com um pouquinho de prosápia, apreender o presente e vislumbrar para o amanhã as perspectivas que ora a vida nos apresenta. Esclarecido isto, é certo que, se casares comigo, não levarás uma vida de Grace Kelly, primeiro porque eu não sou nenhum Príncipe Rainier e em seguida pelo fato de preferir os sobrados com grandes janelas de Minas às mansões de Monte Carlo. Também porque, na nossa provável mansão – dessas da Caixa, de, talvez, três cômodos: um nosso, outro para as crianças e outro um escritório de trabalho e criação compartilhado – não necessitaremos de súditos e empregados para nos pedir benção todos os dias. Sendo um pouco otimista, e se a especulação imobiliária permitir, poderemos nos mudar para um apartamento maior ou uma casa, quiçá ter até um atelier, um jardim para nos entreolharmos com ternura enquanto procuramos minhocas e admiramos borboletas. E isso antes dos quarenta e das crianças nos abandonarem!

Ademais, é bem provável que não viajemos todos os anos para a Europa. Sinto lhe informar, mas ecoturismo na Ásia ou Oceania? Esquiar nos Alpes suíços? Surf nas Bahamas? Hum, com duas ou três crianças? Fora de cogitação, pois comprometeríamos toda a renda de um ano, ou mais do que isso. Mas quem sabe um passeio em Cuba se torne algo real e bem próximo da gente. Se economizarmos um pouquinho por mês conheceremos nuestra Ilha bem rapidamente e, tomara Deus, com Fidel vivo. Os meus amigos economistas poderão nos ajudar com um cálculo de poupança para isso. Ah, e a famigerada Buenos Aires, topa o frio de julho ou prefere o frescor de abril? Está bem, fica combinando assim então: Argentina e Chile de uma só vez! E a minha querida Rússia, se planejarmos para o verão, me acompanhas até o Palácio de Inverno?

Como pôde ver, não está nas nossas escrituras levar uma vida típica da nobreza parasitária européia. Mas se seguires comigo prometo que a nossa casa de Ouro Preto será sempre uma estância de amor, um exemplo para o quarteirão, e nela nunca faltará uma taça de vinho, um pedaço de pão, alguns livros e muita paixão.

Igor Figueiredo – outono de 2011, Campinas-SP

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As Quatro Estações

O coração desta menina de riso fácil e movimentos suaves é um jardim de labirintos, um mundo de muitas entradas e raras saídas; é um labirinto iluminado com luzes que brilham e se apagam em meio à madrugada. Eu já me perdi no meio dele, hoje me encontro sereno, admirando estrelas sentado nas pedras que juram saber o futuro. Já não tento mais encontrar a saída nem convencer tais pedras a me revelar o que está por vir, pode ser que me instale por aqui mesmo ou que seja despejado um dia desses. Mas não me preocupo, nos mistérios do teu corpo e do seu coração existem nutrientes que me alimentam e inspiram por todas as estações do ano.

No verão, por exemplo, ela banqueteia comigo e faz queimadas espontâneas em meu coração. Os três meses de sol e de chuva são bem parecidos com as suas cores, com a vida dos teus olhos e com a quentura dos teus abraços; teu gingar me provoca a mesma paralisa que as tardes ensolaradas de janeiro. Tua pele jovem me arrepia e excita como uma floresta ainda não desbravada. Tens o cheiro sedutor das noites mais frescas de verão. Durante as nossas noites cálidas de verão a água ardente escorrida das tuas costas será o meu sustento. Ah, minha querida, você é uma brasa solta voando na brisa, queimando e semeando terrenos há muito tempo inférteis.

O outono é a intermediação perfeita entre uma noite de verão e os ventos frios de julho. Transições, dúvidas no sentir, corações trepidantes que não sabem escolher entre partir ou chegar; outono é inquietação, medo de esquentar demais, mas também receio de esfriar e nunca mais vingar. Ela é tudo isso; é também dia bem maior que noite, folha seca caindo para esperar o broto, é inspiração e vinho chileno para acalentar o coração.

A minha musa às vezes me lembra uma tarde fria de inverno, vontade de cobertor às quatro da tarde no meio do mês de julho, Truffaut com mate e Allen Ginsberg recitado ao pôr do sol. É madrugada de vulva ardente aquecendo os lábios, depois carinho e lassidão até adormecer. Inverno é a hipotermia do meu medo, é a criogenia do nosso amor. Essa estação me faz relembrar o futuro, lembrar do nosso passeio na Buenos Aires abaixo de zero, dançando entre El Cachafaz e Mafalda. É a minha lucidez e sobriedade interrompida após meia garrafa de uísque doze anos que tomei para espantar o frio e a vontade de você.

Mas de todas as estações tão bela e delicada como você é somente a primavera. Mesmo assim, as cores da estação das flores não competem com o fulgor de sua áurea. A primavera é você seminua exaurindo perfume pelo ar; somos nós respirando pólens e espirrando paixão. É o poeta ressignificando amores, inventando florais que curem o orgulho e a solidão; é a quantidade certa de amor por você, nem tão sóbrio, mas seguro.

Agora que estou terminando as palavras simples deste texto percebo que cada vez que me lembro de você sou eu quem tem o sorriso fácil e espontâneo, só de ter ficado algumas horas pensando em você.

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